Domingo, 11 de Setembro de 2011

Status I

Gostaria de agradecer desde já os elogios que tenho recebido por este pequeno espaço (todos os 3), e assegurar que este blog não está morto, tal como a minha curiosidade sobre a cidade onde cresci não desvaneceu.

Confesso que o meu tempo livre diminuiu bastante, mas estou a tentar reconstruir uma vida, e não é fácil segurar todos os fios - daqueles que queremos ter sempre connosco - enquanto mudo repetidamente o meu rumo em busca do caminho que desejo.

Neste fio em particular, posso confidenciar que tenho vários posts em modo rascunho, que apenas não publico porque, ou estão incompletos ou precisam das fontes. Refiro ainda que quando comecei esta pesquisa não me preocupei em guardar as fontes, pois não pensava partilhar o que encontrava de forma pública... nem sequer pensava encontrar tanta informação! Assim fiquei com inúmera informação cujas fontes estão em falta... e a única pista que tenho é a língua em que estão escritos os textos.

Vou tentar colocar um novo post mal arranje tempo livre. Se quiserem posso começar a colocar curiosidades sem qualquer fonte associada, mas sinceramente não concordo muito com a ideia.

Bem-hajam!
Kenny.

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Vistas de Duarte D'Armas II

Vista Tirada da Banda de Noroeste

Duarte d'Armas desenhou ainda outra vista panorâmica da vila de Castelo Branco em 1509. A vista é a seguinte:

Imagem 1 - A nomeada Vista de banda de Noroeste do Livro das Fortalezas

Esta vista mostra a forma como a vila cresceu ao longo do cume para o sopé, no sentido Nascente. É uma vista com pormenores intrigantes (serão analisados em pormenor noutros posts), uma vista belíssima que mostra o castelo em toda a sua grandiosidade quinhentista. Impressiona a arquitectura militar, com a presença de barbacã, fosso e matacães. Esta vista será aqui usada de forma exaustiva, pois é um excelente utensílio de análise. E é um privilégio que Castelo Branco tenha esta prova da sua anterior grandiosidade, e uma infelicidade que não se tenha analisado exaustivamente esta imagem.

Esta vista é tirada de uma direcção Este, Este-Sudeste, como mostra a orientação das igrejas (Igreja de São Miguel). Isto porque a porta principal destas aponta sempre para Oeste(3), este é um elemento que ainda hoje se observa pois, apesar de todas as alterações efectuadas, a orientação da Igreja manteve-se.

Em relação a pontos de referência temos hoje em dia a Torre do Relógio, o castelo, a muralha que subsiste no cimo da Rua do Mercado, a que desce o miradouro e a que se esconde detrás do Jardim Episcopal. Finalmente temos a Sé Catedral, cujas torres sineiras - por vezes! - se avistam por cima do casario.

Portanto sabendo a orientação, tendo pontos de referência e ainda o conhecimento (adquirido na anterior postagem) da perfeição do desenho de Duarte d'Armas, vamos tentar saber qual o sítio onde actualmente poderia este estar quando desenhou esta vista.

Veja-se como a posição central do desenho é ocupada pela Torre dos Templários, com a Torre do Relógio ligeiramente do lado esquerdo (mais a Sul portanto). Isto indica sobremaneira a posição do observador. 

Imagem 2 - Imagem de satélite com a indicação de vários pontos de referência e de interesse.

A imagem acima é uma imagem de satélite na qual marquei:
  • A amarelo a localização da Torre dos Templários.
  • A vermelho a localização da Torre do Relógio
  • A linha laranja indica a direcção provável do desenho de Duarte d'Armas.

Depois temos mais duas circunferências que indicam os sítios de onde foram tiradas as fotografias que passarei a analisar. A verde a localização da seguinte imagem:

Imagem 3 - Fotografia tirada de um dos locais analisados, demasiado a Sul.

Esta imagem está demasiado a Sul, a Torre do Relógio está até do lado oposto ao qual deveria estar para coincidir com o desenho de Duarte d'Armas

A circunferência azul indica o local da fotografia seguinte.

Imagem 4 - Segundo local analisado, ligeiramente a Norte da direcção ideal.
Note-se nesta imagem 4 a seta azul que aponta um dos pináculos da Sé Concatedral, o que indica a sua posição relativa. Tentei sobrepor esta imagem com a vista pois pensei que coincidisse, mas não foi possível, mesmo adulterando bastante o desenho do Duarte d'Armas.

A conclusão lógica é que a direcção de onde Duarte d'Armas desenhou a vista estará mais a Sul deste local (mais para o lado esquerdo relativamente à fotografia). Essa direcção está representada na Imagem 2 com a linha laranja.

Ironicamente vivi durante anos num prédio que tinha excelente visibilidade para o castelo, que se situa nessa linha, e não consegui encontrar uma única fotografia dessa altura. Esta postagem demorou imenso a sair pois quis encontrar 'o' sítio exacto, ou um sítio que me permitisse uma sobreposição semelhante à realizada anteriormente, mas apesar de todos os esforços (mesmo muitos), tal não foi possível. A dificuldade prende-se com os prédios que nasceram à volta da Rotunda Europa, que tapam visibilidade para a Torre do Relógio.

Apesar de não poder concluir com qualquer certeza esta postagem, sei que futuramente será possível indicar com recurso a um modelo tridimensional a direcção da vista e, consequentemente, o local possível desta belíssima vista.

Sem tempo livre,
Kenny.

Fontes
1 - Armas, Duarte de. Livro das Fortalezas. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Edições INAPA. Lisboa. 1997 (com introdução de Manuel da Silva Castelo Branco).
2 - SkyscraperCity, Castelo Branco no Skyscraper City. http://www.skyscrapercity.com/ - acedido a 16 de Dezembro de 2010.
3 - Silva, Jackson Alexandre, Orientação. http://grupoadventury.br.tripod.com/Materiais/Orientacao.htm - acedido a 15 de Dezembro de 2010.

Bibliografia de Imagens
Imagem 1 - vide 1
Imagem 2 - vide 2
Imagem 3 - do autor.
Imagem 4 - do autor. 


PS: Peço desculpa pelo espaçamento de posts, mas é algo de normal visto que estou em exames e entregas de trabalho desde Dezembro (really!). Apartir de 15 de Fevereiro terei muito mais tempo livre para dedicar a este meu hobby. : )

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Vistas de Duarte D'Armas I

Duarte d'Armas, (por vezes referido como Duarte de Armas), nasceu em Lisboa em 1465. Filho de escudeiro Real, tornou-se ele mesmo Escudeiro da Casa Real e foi encarregue pelo rei D. Manuel I de fazer um levantamento de todas as fortificações situadas na raia com Castela (2).

Imagem 1 - Duarte D'Armas em C.B.
Este levantamento foi feito escrupulosamente por volta de 1509-1510, sendo registadas para cada castelo uma ou duas vistas panorâmicas, uma planta e comentários sobre o actual estado. Acrescenta a curiosidade de Duarte d'Armas se ter desenhado a si mesmo em várias vistas panorâmicas (no caso do castelo de Monsanto até se registou duas vezes, uma no sopé e outra a meio caminho) juntamente com o escudeiro que o acompanhou (1).

Estes registos originaram o Livro das Fortalezas (dividido em dois códex), cujo original se encontra hoje na Torre do Tombo. Há ainda cópias da mão do próprio Duarte d'Armas em Espanha, com algumas discrepâncias normais do trabalho manual da época.

Após estas notas vejamos o caso particular de Castelo Branco. Duarte D'Armas deixou-nos duas vistas, uma planta e várias notas sobre a fortificação (1). Deste registo fantástico analisemos as vistas, pois neste apartado há inúmera discussão, relativa ao sítio donde estas foram desenhadas... Qual seria portanto o sítio onde hoje em dia estaria Duarte d'Armas em cada vista?

Vista Tirada da Banda do Sueste 
Assim nomeada no Livro das Fortalezas a vista (na verdade de sul-sudoeste) mostra o castelo de Castelo Branco de perfil, deixando-nos uma visão fantástica da fachada do Palácio dos Comendadores, para além de vários pormenores interessantes de que falarei noutros posts.

Imagem 2 - Castelo Branco, Vista de Banda de Sueste, por Duarte D'Armas

Esta vista hoje em dia seria completamente diferente, pois quase não há cintura exterior de muralhas, as que existem têm a vista bloqueada pelo casario, e os únicos pontos de referência são a Torre dos Templários, a Torre Original (original porque é a única parte do castelo que sobreviveu ao tempo, tudo o resto é reconstrução do séc XX), um pano de muralhas que sobrevive no fim da Rua do Mercado e a Torre do Relógio.

Assumamos ainda que o Duarte d'Armas poderia não desenhar muito bem (possibilidade remota, visto que vários autores contemporâneos até elogiam a qualidade do seu trabalho - vide Post Scriptum), mas que em termos de distâncias relativas era cuidadoso (quem usufruir de uma cópia do Livro das Fortalezas pode comparar as vistas com castelos existentes e ver que existem vistas desproporcionais, mas são - felizmente! - minoria). Era um trabalho pedido pelo rei D. Manuel I, um rei generoso e imensamente respeitado por todo o reino. Como tal pode-se dizer que Duarte d'Armas se esmerou. : ) Portanto analisemos:

Imagem 3 - Fotografia de Castelo Branco desde o Barrocal.

Esta imagem tem os pontos de referência nos sítios correspondentes, é uma pena o casario ocultar a fortificação, mas esta é claramente a direcção da vista de Duarte d'Armas. A fotografia foi tirada do cimo do monte que reina o Barrocal, e parece-me ser ali onde foi desenhada a vista. Não tenho argumentos tão sólidos que não possam ser refutados - há sempre base para a negação de qualquer argumento - mas acredito que Duarte d'Armas ia tentar encontrar um sítio elevado para ter uma melhor visão, uma visão mais global e panorâmica, que lhe permitisse desenhar de forma realista o que via.

Infelizmente o tempo não tem auxiliado a investigação, e sempre que chego ao sítio ou o Sol se esconde ou a hora tardia não permite tirar a fotografia que seria perfeita. Pode-se refutar que as dimensões da fotografia / desenho estão completamente erradas, mas os locais relativos estão correctos. Com algum engenho quase que é possível emendar esses erros.

Imagem 4 - Sobreposição entre a vista de Duarte D'Armas e a cidade actual (11-2010).
Este pode nem ser o local donde Duarte D'Armas desenhou o belíssimo castelo de Castelo Branco, mas a direcção está, muito provavelmente, correcta. Na Imagem 4 é ainda possível deslumbrar a disparidade entre os tamanhos reais e os desenhados, normal para a época. 

Ainda assim note-se que a distância relativa entre pontos está desenhada de forma irrepreensível, como demonstra a Imagem 5, pormenor da Imagem 4.

Imagem 5 - Pormenor da Imagem 4.
Esta imagem mostra o local do pináculo da Capela do Espírito Santo e o desenho da Porta Sudoeste da Vila. É simplesmente impressionante que o sítio coincida com a fotografia, pois demonstra a habilidade do Duarte D'Armas com a pena. Isto porque o pináculo permite-nos ver a direcção em que está a Rua de Santa Maria, e consequentemente a Torre (ainda existente, por detrás do café "O Cais") que guardava a Porta Sudoeste da Vila.  

No próximo post analisaremos a outra vista do castelo, de análise muito mais difícil e algo subjectiva...

Até lá,
Kenny.

Fontes
1 - Armas, Duarte de. Livro das Fortalezas. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Edições INAPA. Lisboa. 1997 (com introdução de Manuel da Silva Castelo Branco).
2 - Nunes, António Lopes Pires. Dicionário de Arquitectura Militar. Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2005.

Bibliografia de Imagens
Imagem 1 - vide 1
Imagem 2 - vide 1
Imagem 3 - do autor
Imagem 4 - sobreposição das imagens 2 e 3.
Imagem 5 - vide Imagem 4.

Post Scriptum:
Como nota final deixo aqui um link para uma análise fantástica aos desenhos do Livro das Fortalezas por um expert.
E ainda um link que mostra a excelência do trabalho de Duarte d'Armas, em relação ao castelo de Penamacor:

Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

Relatando a História

Castelo de Castelo Branco - Vista Interior
Castelo Branco tem uma vasta e riquíssima história, adornada de reis, príncipes, princesas, comandantes, generais, templários e heróis. Foram nesta cidade assinados tratados importantes, erigidos monumentos belíssimos, travadas sangrentas batalhas, escritas diversas obras de arte e criados mitos, imensos mitos. É uma cidade única, misteriosa, que tenta aliar o novo ao velho e que não o consegue.

Este blog surge da necessidade que tive de ter um espaço onde disponibilizar tudo o que encontrei sobre Castelo Branco, que não é pouco e que atinge várias datas e figuras. 

Aqui irei falar dos seguintes temas:
- Tapori, Francos e Celtiberos
- Origem de Castelo Branco
- Toponímia de Castelo Branco
- Os Templários e Castelo Branco
- Fazer 'fossado'
- Castelo Branco na Crise 1383-1385
- Castelo Branco e os Judeus.
- Castelo Branco na Guerra da Restauração
- Castelo Branco na Guerra da Sucessão Espanhola
- Castelo Branco na Guerra dos Sete Anos
- Castelo Branco nas Guerras Penínsulares
- O pelourinho de Castelo Branco
- A Igreja de Santa Maria do Castelo
- As troneiras / seteiras da Igreja de Santa Maria do Castelo
- Semelhanças entre Castelo Branco e Tomar
- Semelhanças entre Castelo Branco e Chastel Blanc
- As reconstruções do castelo de Castelo Branco
- Santa Wilgeforge
- A bala de canhão na muralha de Castelo Branco
- Castelo Branco, os mitos e os túneis
- A santa relíquia do Convento de Santo António 
- Castelo Branco e Aníbal, o Cartaginês
- A Torre do Relógio
- Castra Leuca e Belcagia
- As vistas de Duarte D'Armas

Todos estes temas ainda estão sob investigação, pois há sempre novos elementos que descubro que acabam por alterar a minha conclusão em relação a estes, mas certamente que há alguns temas que poderei postar ainda este mês. 

Eu tentarei fundamentar tudo o que aqui escrevo, indicando as fontes em que encontrei tudo, mas isso não implica que eu não erre, e como tal, deixo que cada leitor chegue às suas próprias conclusões. 

Fomentarei a discussão de todos os temas, pois assim poderei ver outros pontos de vista e quem ganha é a própria cidade.

Desejem-me sorte nesta aventura,
Kenny.